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23/09/2010

Diário de Angola

DIÁRIO DA ANGOLA - 15

de Pe. Luiz De Liberali

missionário salesiano

 

 

FORMANDO PARA EVANGELIZAR

 

Nestes meses dediquei bastante tempo e energias para formar os catequistas e para organizar a catequese em vista de uma evangelização mais frutuosa.

 

FORMAÇÃO

Muitos dos nossos catequistas (que são também coordenadores de comunidades) não estão preparados para a missão que desempenham. Desde o início os salesianos se preocuparam com a formação deles organizando encontros. Logo que cheguei aqui, percebi a necessidade de continuar nesta linha e comecei a dar cursos, em áreas geográficas diferentes, para alcançar o maior número possível de catequistas. Em 2009 realizei 7 cursos, com a presença total de 117 catequistas, que vinham representando 52 povoados diferentes. Foi uma experiência muito bonita que, além de formar os responsáveis, chegou a animar muitos outros cristãos que participaram dos encontros (jovens, homens e mulheres) e as comunidades vizinhas (através de visitas).

 

 

SUBSÍDIOS

Um dos maiores problemas que encontrei nos catequistas foi a dificuldade de leitura e de compreensão dos textos. Para isso, para ajudar os catequistas a ter um conhecimento mais completo da fé, no final do ano passado preparei um novo catecismo, bastante simples, dividido em três partes. Os três volumes (que receberam o título de “ABC do catecismo”) acompanham a caminhada catecumenal e explicam, de maneira muito concisa, a história da salvação, o creio, os mandamentos e os sacramentos. Com a ajuda dos catequistas itinerantes (aqueles que me acompanham nas visitas às comunidades) o catecismo foi traduzido na língua local.

 

 

 

OS CURSOS

 

De março a junho 2010 já foram dados 7 cursos, com a presença de 174 catequistas, de 54 comunidades. Falta ainda um curso, em Cangonga, que irei realizar nos próximos dias.

 

1- CANGUMBE

O primeiro curso de catequistas aconteceu em Cangumbe (85 km de Luena). Ao redor deste centro  existem 15 aldéias, mas só em 8 delas têm catequista e capela. Para o encontro, no mês de março, reuniram-se 25 catequistas. Também crianças, jovens e mulheres participaram da formação e foram envolvidas nos grupos de estudo e reflexão. Ao longo da semana, pela manhã, visitamos 4 comunidades, celebrando a eucaristia e incentivando a catequese. No final do curso houve a festa do padroeiro de Cangumbe, São José, que foi muito bonita e bem participada.

 

2 - MULALU

Pela primeira vez passei alguns dias na pequena aldéia de Mulalu (70 km de Luena), que é ponto de referência de 8 aldéias. O ano passado a comunidade estava um pouco abandonada, pela ausência do catequista, mas neste ano, com a presença de outro catequista, a comunidade está firme e forte. No curso apareceram 9 catequistas de 5 comunidades, mas também crianças, jovens e adultos da comunidade participaram das atividades de formação e das celebrações.  Fomos acolhidos nas duas salas de aula da escola, construída pela paróquia depois da guerra.

 

 

 

3 - MUANGAI

Na metade de abril realizei a formação em Muangai (90 km de Luena), onde reuniram-se 17 pessoas de 5 aldéias. Para nos acolher, os cristãos construiram uma casa de visita, muito simples e pequena, mas que nos amparou muito bem do frio da noite. Teve um pouco de dificuldade na comida: algumas vezes os catequistas tiveram que “juntar” almoço e jantar pela falta de conduto! Ao longo do curso visitamos algumas comunidades, constatando ainda muitos problemas. Teve porém a alegria de ver o nascimento de uma nova presença-igreja, num dos povoados visitados.

 

 

4 - MAKONDOLO

No final de abril cheguei aos povoados mais difíceis a serem alcançados (por causa das estradas bem estragadas), na área de Makondolo (250 km de Luena), com uma viagem que mereceria um diário a parte, pelos obstáculos encontrados. Consegui, porém, realizar o programa e, além disso, visitar mais comunidades, porque teve que, forçadamente, parar muitas vezes por causa das dificuldades!  Participaram do curso 39 pessoas, de 9 povoados (mas ao redor deste centro existem 27). A comunidade local organizou bem a hospedagem e muitos cristãos marcaram presença nos encontros de formação e nas celebrações.

 

 

5 - CANGAMBA

De 7 a 16 de maio esteve em Cangamba (340 km de Luena – 6.000 habitantes - sede de um município de 40.000 km2). O curso foi o mais bem participado pela comunidade local (45 pessoas), mas poucas comunidades se fizeram presentes (só 6 aldéias). Os momentos formativos foram muito bem acompanhados e ajudaram bastante a compreender o conteúdo e o método de dar catequese. No penúltimo dia aconteceram batizados, primeiras eucaristias e casamentos e  no último dia a festa da Padoreira, nossa Senhora Rainha da Paz.

 

 

6 - SACASSOMBO

Este é o menor centro da paróquia (4 comunidades) a 70 km de Luena. Além dos catequistas da região vieram participar ao encontro também catequistas de outras 4 comunidades vizinhas. Como em todos os outros cursos, pela manhã visitamos e celebramos nos diferentes povoados, a tarde tivemos formação sobre a história da salvação, divididos em grupos, e à noite filmes bíblicos. No final, un dos catequistas disse: “Agora aprendemos a ser ´Pedro´ na comunidade”.

 

 

 

7 - CHIKALA

O curso que reuniu catequistas de mais comunidades aconteceu de 18 a 24 de junho em Chikala (35 km de Luena). Participaram 25 catequistas de 12 povoados. Tudo correu muito bem. A única dificuldade foi a da água, pela distância dos rios, mas conseguimos superá-la indo todos os dias buscar 200 litros de água com o carro. Muito bonitas foram as visitas às aldéias vizinhas porque, todos os dias, de 30 a 40 pessoas iam juntas, levando fé e alegria às comunidades. Ao longo do curso tivemos duas visitas especiais: a da equipe missionária jovem da paróquia, para ajudar a aprender um método mais eficace e moderno de dar catequese, e, no final, a visita do Bispo de Luena, Dom Tirso, para celebrar a festa do Padroeiro da comunidade, S. João Baptista.

 

 

 

FATOS  E REFLEXÕES

 

Durante as viagens e os cursos, aconteceram muitos fatos interessantes e curiosos. Também nasceram em mim muitas reflexões. Vou contar alguma coisa...

 

DISPONIBILIDADE E SACRIFÍCIO

Admiro bastante os nossos catequistas pelo espírito de sacrifício e pela disponibilidade que eles demonstram. Como nesta região não existem muito meios de locomoção, nem muita disponibilidade econômica, então a única solução é se locomover a pé ou de bicicleta, percorrendo, às vezes, longas distâncias e por caminhos difíceis. Um exemplo: os três catequistas de Cangombe, depois de percorrer 85 km a pé (dois dias de viagem) para participar do curso de Cangamba, me pediram ajuda na volta, porque tinham encontrado um leão ao longo do caminho! No final do curso foi deixá-los mais perto da aldéia, muito além do lugar onde estaria o leão, mas ainda tiveram que fazer 5 horas de marcha para chegar em casa!

 

 

 

PARTILHA

Uma das bonitas experiências que acontece no final de cada curso é o almoço partilhado, com toda a comunidade. As mamãs preparam grande panelões de fungi (polenta de farinha de mandioca) e o conduto (um pouca de carne, mas sempre pouca comparada ao número de pessoas!) e o dividem para os vários grupos presentes. É uma lição ver o bom comportamento, a calma, a paciencia e o respeito de todos, na espera da chegada da comida. E quando os pratos estão na mesa (melhor no chão!), todos partilham o pouco che têm!

 

CAMINHADAS

No nordeste do Brasil o povo faz muitas caminhadas (romarias), especialmente em ocasião das festas dos padroeiros.  Aqui, ainda, esta tradição não está muito enraizada, mas o povo caminha bastante para se locomover e participar das celebrações em outras comunidades. Assim, para dinamizar mais a comunidade de Cangamba, fiz a proposta de realizar caminhadas todos os dias, celebrando, depois, em lugares diferentes: foi uma experiência muito bonita que animou os vários bairros, chamou a atenção do povo e preparou melhor a festa da Padroeira, a Rainha da Paz.

 

 ENERGIA NA IGREJA

Sabendo que a prefeitura de Cangamba tinha instalado um gerador na cidadezinha e que se poderia aproveitar da distribuição da energia na igreja (dando uma pequena contribuição mensal), quando estava preparando o material para o curso de catequistas, coloquei no carro, também, três rolos de fios (60 metros), alguns bocais, lâmpadas e outro material que poderia servir para a instalação elétrica. Com a ajuda de um experto do lugar e de alguns catequistas, em dois dias, a igreja e a casa da missão estavam ligados à “rede pública”. Nem imaginam a alegria do povo, na noite da festa de N. Sra. de Fátima, em ver a igreja “iluminada”!

   

FELICIDADE DAS CRIANÇAS

Todos sabemos que basta pouco para fazer feliz uma criança, mas as crianças destes povoados ficam contentes ainda mais facilmente, também porque são poucas as visitas e não tem acesso a coisas fora da vida cotidiana delas. Nas comunidades, quando posso, partilho com as crianças pequenas coisas que “sobram” dos encontros: meio copo de leite, um pratinho de sopa, um pouquinho de creme de leite, uma pequena fatia de doce, uma colher de açúcar, um pedaço de pão, um biscoitinho... No final, o mais alegre de todos sou eu, vendo tanta felicidade!  

  

ATOLANDO NA ÁGUA E NA LAMA

Como a viagem para participar do curso de catequistas em Makondolo, foi no final do período das chuvas, encontramos muitas dificuldades e obstáculos: o mais difícil foi o atolamento (no meio de água, paus e lama) perto da ponte do rio Lungue-Bungo (o maior rio da região), na ida e na volta. Na ida foi até fácil sair, porque colocamos a corda de aço numa coluna de madeira da ponte e, com o guincho, conseguimos puxar o carro; na volta porém foi mais difícil, porque na nossa frente não tinha nem sequer uma árvore (e, além do mais eram às 4 de madrugada)! Ainda bem que encontramos, no meio da lama, um tronco já cortado: cavamos um buraco, o pomos dentro, colocamos a corda e... conseguimos sair também dessa!

 

 

VÁRIAS PARADAS

Para chegar a visitar as comunidades mais distantes, depois do curso de Makondolo “esticamos”  a viagem de mais 130 km, chegando até Tempué! A viagem foi terrível, porque o caminho é pouco percorrido pelos carros e, no período logo após as chuvas, com muitas plantas herbáceas: por isso tivemos que parar muitas vezes para limpar o radiador. O pior foi que rasguamos a tela de proteção e, assim, as sementes das ervas e as pequenas folhas entraram e intupiram todos os furos! Amenizamos a situação colocando uma cortina de pano, mas igualmente as paragens foram muitas: em 13 horas conseguimos percorrer 110 km!

 
 

PÃO E TOMATE

Numa das viagens, vimos que, num trecho do caminho, alguém tinha perdido tomates. Paramos, várias vezes, para colhê-los, pensando que teríamos aproveitado deles numa das refeições, durante um curso. Se tornaram muito úteis, porém, dois dias depois, quando ainda não tínhamos  chegado ao destino, junto a vários catequistas que tínhamos carregado ao longo da estrada. Nosso  almoço foi tomate e pão: parecia comida do McDonald, tanta era a fome!

 
 

ARROZ COM ATUM

As paradas, nesta viagem de volta de Tempué, se tornavam longas porque devíamos resfriar a água e limpar bem o radiador (utilizando até o gerador e uma pequena bomba de ar). Às 14 horas, parados no meio da estrada, pensamos em preparar o almoço. Já fazia 10 dias que estávamos longe de casa, mas ainda tínhamos alguma comida conosco. Cortamos alguns ramos secos, pomos a panelinha com água sobre o fogo, cozinhamos dois copos de arroz e abrimos uma lata de atum. Mesclamos tudo e colocamos nos pratos: foi o almoço mais “gostoso” da viagem!

 
 

UM PEDAÇO DE SABÃO

Estávamos lavando a panela e os pratos, quando passaram duas jovens senhoras, carregando suas crianças e o material para o trabalho, que estavam indo nas lavras. Depois dos cumprimentos (como é costume quando se encontra alguém), na hora de continuar seu caminho, as senhoras fizeram um pedido: “Pode-nos dar um pedaço daquele sabão, para nos lavar no rio?” Logo, cortei o sabão, em três partes. As senhoras saudaram e foram embora felizes, por ter recebido um pedacinho de sabão para se lavar e lavar suas crianças!

 
 

IGREJA RESTAURADA

Em Cangonga a comunidade católica não tinha um lugar para se amparar: na celebração da Páscoa tivemos que nos proteger com cadeiras e chapas para nos defender da chuva! Depois de 4 meses de trabalho, a estrutura da igrejinha, que parecia velha e caindo, tomou um novo aspecto e oferece um espaço bonito e digno para as celebrações e para os encontros da comunidade. Cinco operários do nosso centro profissional conseguiram realizar a primeira parte da restauração, acabando as paredes, colocando o teto com asnas  de ferro e pintado-a. Faltam ainda janelas, portas e banheiro, mas, com a ajuda de benfeitores, iremos conseguir terminar a restauração. No dia 25 de junho foi feita a primeira grande celebração, com a presença do Bispo, que gostou do trabalho e incentivou a comunidade a colaborar mais.

 

 
DESAFIOS E VITÓRIAS

Durante estas viagens, teve a oportunidade de visitar alguns povoados que ainda não conhecia, ou que ainda não tem catequista. De um total de 150 comunidades que estão na zona rural do território que é confiado à nossa paróquia, 55 ainda não tem presença da igreja católica (quer dizer mais do que a terceira parte). È um dado que faz refletir, sabendo, ainda mais, que em quase todos os outros lugares somos uma menoria e, muitas vezes, com catequistas pouco preparados religiosamente! No meio de tudo isso, porém, sempre acontecem boas supresas e adesões: catequistas que estavam isolados e que aparecem, comunidades que constrõem ou reestruturam a capela, novos grupos de catecúmenos... O Espírito Santo age mesmo!

 

 
PEQUENOS PASSOS

Concluindo, posso dizer que vejo alguns passos positivos: está crescendo a sensibilidade dos catequistas;  a participação de crianças, jovens e adultos na catequese está se tornando un pouco mais constante; o conteúdo está sendo sempre mais profundo. Nas comunidades por aonde passo, incentivo sempre a formação de grupos de catecumenato, faço a entrega dos sinais (sinal da cruz, Creio e Pai nosso) e falo da importãncia da preparação aos sacramentos. São pequenas coisas, mas espero que ajudem a um compromisso maior no seguimento de Jesus, dentro da Igreja, com a ajuda da Mãe Maria.

 

 

Pe. Luiz De Liberali

 

Salesianos de Dom Bosco

Paróquia de São Pedro e São Paulo

Luena – Moxico - ANGOLA

 

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