HOMILIA NA ORDENAÇÃO PRESBITERAL
DOS DIÁCONOS CARLOS, CLEYTON E LAÉRCIO
Recife, 17/12/2011
A ordenação de um padre é sempre motivo de grande alegria: para o padre novo, para seus familiares e amigos, para a comunidade que celebra a Eucaristia, para a Igreja inteira, para o bispo ordenante também. Por que toda essa alegria? A resposta é simples: porque todos sentem a presença do Espírito Santo, e onde o Espírito Santo está presente, ali há alegria. Afinal, a ordenação é o acabamento de uma primeira grande etapa que, toda ela, é obra do Espírito Santo: o primeiro chamado, a certeza da vocação, o crescimento humano, espiritual e religioso, tudo é obra do Espírito do Senhor. Como Ele não haveria de estar presente neste momento que é precisamente a coroação de longos anos de presença e ação no coração dos ordenandos? E como não sentir a alegria da sua presença?
Não foi assim naquela que podemos chamar de a primeira “ordenação sacerdotal” da história, isto é, quando o Filho de Deus assumiu a carne humana no seio de Maria? Não foi tudo obra do Espírito Santo? E não foi com um convite à alegria que o anjo Gabriel saudou a Virgem, dizendo: “Alegra-te, cheia de graça; o Senhor está contigo... O Espírito Santo descerá sobre ti”? Não foi a alegria do Espírito Santo que invadiu o coração de Isabel, prima de Maria, quando esta foi visitá-la? Diz São Lucas: “Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou-lhe de alegria no seio e Isabel ficou cheia do Espírito Santo” (Lucas 1,41).
Meus irmãos e minhas irmãs, como não poderia ser dia de alegria, este, em que sobre estes nossos irmãos vai pairar o Espírito Santo como pairou sobre Maria? Há grande semelhança entre Maria que concebe o Filho de Deus em seu seio por obra do Espírito Santo, e o padre, porque também nele, de forma misteriosa, mas muito real, se torna presente Jesus. Num gesto de profunda fé, Maria disse: “Faça-se em mim segundo a tua Palavra” (Lucas 1,38). É esta mesma fé, esta mesma disponibilidade à Palavra de Deus que, neste momento, se pede aos que vão ser padres dentro de minutos. É esta mesma fé que se pede a todo padre ao longo de sua vida. De fato, em primeiro lugar, ele deve crer em si mesmo, isto é, que nele, por obra do Espírito Santo, se tornou presente o Sumo e Eterno Sacerdote Jesus; deve crer que ele se torna o sacrário, o templo, o ostensório de Jesus. Ora, ver que estes nossos irmãos são consagrados pelo Espírito Santo para ser a presença de Jesus, os portadores de Jesus ao mundo de hoje, em particular, os portadores de Jesus aos jovens, não é motivo de grande alegria?
De que modo acontece esta transformação? O bispo ordenante e, com ele, todos os padres, impõe as mãos sobre os ordenandos. Esse gesto traduz muito bem a presença do Espírito Santo que paira sobre a cabeça dos candidatos. E pelas palavras da oração consecratória, de fato, com toda a certeza da fé, o coração dos ordenandos é transformado pelo Espírito do Senhor e se torna semelhante ao coração do Bom Pastor, mais, o próprio Bom Pastor se torna presente neles. Quanta alegria deve sentir o padre novo ao olhar para si mesmo e ao tomar consciência dessa realidade nova e admirável! Quanta fé se exige do padre novo para não permitir que essa consciência algum dia se apague!
Apenas Maria concebeu o Filho de Deus em seu seio por obra do Espírito Santo, ela, como um ostensório vivo, naquela que o Papa Bento XVI qualificou como a primeira procissão de Corpus Christi, levou Jesus à casa de Zacarias para santificar João ainda no seio de Isabel. João sentiu a presença de Jesus e saltou de alegria no seio de sua mãe; e Isabel ficou repleta do Espírito Santo. Idêntica é a missão do padre. Ele também deve estar atento ao sopro do Espírito que lhe indica os caminhos por onde levar Jesus, para santificar, com sua Palavra e com seus gestos, o coração de todos. Ser padre é ser dócil e pronto ao Espírito do Senhor, pois o mesmo Espírito que conduziu Jesus por toda a parte, inclusive até o Calvário, também conduz o representante, o portador de Jesus, para salvar a todos. Nisto deve consistir a grande alegria de todo padre.
Como é fácil perceber, não havendo esse liame com Jesus e com o seu Espírito, por mais ordenado que o padre seja por receber o Sacramento da Ordem, ele não terá eficácia em seu ministério. É preciso ser, mais do que fazer. Sem “espiritualidade”, isto é, sem o cultivo de uma forte ligação com o Espírito do Senhor, o padre não passará de um “fazedor de ações sagradas”, nunca, porém, será um autêntico representante de Jesus. Na celebração da Eucaristia, o celebrante impõe as mãos sobre o pão e o vinho, invoca o Espírito Santo, e Jesus se torna presente sobre o altar. É este mesmo Espírito que, dentro em pouco, virá sobre os candidatos que estamos ordenando para torná-los também eles, de certa forma, “Eucaristia”, isto é presença real de Jesus no meio do povo de Deus, em particular, no meio dos jovens.
Que assim seja para estes nossos irmãos Diáconos Carlos, Cleyton e Laércio. Vinde, Espírito Santo! Nós o pedimos ao Pai por intercessão da Virgem e Mãe Maria que, sendo obediente à Palavra, concebeu em seu seio Jesus, o Sumo e Eterno Sacerdote.
Amém.
Dom Hilário Moser
Salesiano de Dom Bosco
Bispo emérito da Diocese de Tubarão - SC